Em prol dos bons textos

Mestre GraçaDeve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” (Graciliano Ramos)

 

Palmas. Silêncio. Contemplação. Vivo a contemplar Graciliano Ramos. O estudei academicamente e foi em nome de seu estilo, seus propósitos e sua forma de escrever que abandonei a carreira acadêmica. Em meu Trabalho de Conclusão de Curso comecei a estudar teoricamente e a formular pesquisa sobre meu já preferido escritor. E sim, ele escreve Literatura de forma jornalística. Me encontrei: estavam ali minhas duas paixões, em Graciliano.

Daí em diante, debrucei-me sobre toda sua obra, enorme para minhas modestas pretensões. Mas seu modo de escrever é único: enxuto, conciso, direto. Todas as características que me atraem e me norteiam e que deveriam nortear todos os jornalistas. É uma pena. Isso não ocorre.

Com a imposição da notícia mais rápida, mais dinâmica, os sites de notícias deixaram de lado a qualidade do jornalismo diário, factual. Como querem dar “furo” nos concorrentes, escrevem pouco, ruim e cheio de “floreios”. Muitos adjetivos para uma coisa só. Aff, será que não vêem que adjetivar cansa o leitor, tira sua atenção da informação importante? Ou, talvez, essa seja a meta.

Os impressos teriam a faca e o queijo na mão frente aos sites, pois têm maior tempo e espaço para escrever. Deveriam aprofundar o que os sites já noticiaram, sendo diretos e corretos como pede o bom jornalismo. Porém, a realidade é outra. Os jornais parafraseiam os sites e pouco aprofundam suas informações. A forma de escrever difere pouco. Ah, mestre Graça, você não gostaria dos textos jornalísticos do jornalismo alagoano atual.

Todo jornalista deveria ler uma obra de Graciliano, no mínimo. E ler devagar não só para entender o enredo, mas também para aprender um pouco a escrever. Veriam que deve-se usar mais pontos finais, menos vírgulas e travessões e evitar o “que”. Essa palavrinha parece o coringa dos jornalistas: eles vão o colocando em orações intercaladas, e colocam outros e outros e depois nem completam a informação vinda antes do primeiro “que”. É um queísmo danado, o qual já é execrado pelos próprios gramáticos.

Conheço poucos que assim escrevem, mas destaco que também não conheço todos. Minhas congratulações a Roberto Vila Nova (Tudo na Hora) e Carla Serqueira. Ah, vocês usam bem o ponto final. A gente consegue respirar e parar pra pensar. Carla, suas matérias grandes de fim de semana nem assustam, pois a leitura sem enfeites e floreios nos conduz e os leitores com certeza são levados até o fim entendendo tudo.

É Graciliano, você é cada vez mais necessário.

2 Respostas

  1. Legal isso. Graciliano realmente faz falta para coibir a incompetência reinante na comunicação alagoana.

    André

  2. Graciliano faz falta realmente, nao so nos bons textos, mas em sua etica e honestidade politica e pessoal. Essas, entao, tao em falta em Alagoas e no nosso pais.

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